Mês passado fui convidada para participar do Fórum
Internacional de Turismo de Reconstrução e Recuperação Pós-Terremoto,
Desenvolvimento e Revitalização, no estado de Sichuan, sudoeste da China.
Comigo foram outros dez estrangeiros que trabalham na mesma rádio que eu.
Como toda viagem a trabalho, especialmente dessas para
participar de congressos, a programação era cheia de formalidades, perdi a
conta de quantas cerimônias de inauguração de alguma coisa em alguma cidade do
interior fui. Eram onze ônibus viajando em comitiva (escoltada pela polícia), a
maioria com estrangeiros que trabalham no setor turístico. O dia inteiro era um
sobe-e-desce de ônibus. Em cada cidade, tava lá o prefeito, a população, todo
mundo fazendo cara de feliz pra impressionar os gringos. Era de se esperar.
O que não era de se esperar foi o que vi. Quando minha chefe
me falou da viagem, não explicou direito o que era, acho que nem ela sabia.
Pensei que iria conhecer as atrações locais mais famosas, que são os pandas
(Sichuan é a terra deles) e o Buda de Leshan, uma escultura de 71 m de altura.
Que nada, vi cidades inteiras destruídas pelo terremoto de
2008, um dos maiores desastres da história mundial. As informações sobre o
número de vítimas são desencontradas (difícil conseguir um dado oficial
confiável por aqui) e variam entre 69 e 80 mil mortos. De qualquer forma, muita
gente. Esses locais são preservados como pontos turísticos, alguns dos prédios
afetados tem até estruturas metálicas para segurar em pé o que restou.
Nunca vou me esquecer da sensação de quando entrei no pátio
de uma escola. Tem até uma espécie de “bilheteria” na entrada.
Passando o portão, começamos a ouvir uma música de funeral e logo em frente
está um enorme relógio, que parou no horário em que aconteceu a tragédia: 14:28.
Logo de início, só de colocar o pé lá dentro, já dá um nó na garganta.
Caminhando pelo pátio, ainda dá pra ver as salas de aulas com cadeiras
retorcidas, móveis quebrados, tudo abandonado como uma cidade fantasma. Imagine
estar num lugar onde você sabe que crianças morreram e muitas até hoje não
tiveram seus corpos resgatados. Segunda reação, depois do nó na garganta:
chorar. Terceira reação: vontade de sair correndo. E isso é uma atração
turística.
Perguntei para vários chineses locais, testemunhas do
terremoto, o que eles acham da preservação desses escombros. Todos tinham uma
resposta pronta: é importante o governo manter esses locais para lembrar os
mortos. E eles falam, com orgulho, que,
no final das contas, a vida melhorou depois da tragédia. Claro, do lado das
cidades e estradas destruídas, estão outras, novinhas em folha. E dizem que são
à prova de terremoto.
Há que se elogiar a eficiência do governo que, com a ajuda
da iniciativa privada inclusive de empresas estrangeiras (quem não quer fazer
uma média com a China?), em três anos conseguiu reerguer comunidades inteiras,
providenciando casa e escola para toda a população. Fosse no Brasil, a verba já
estaria gasta e o prazo vencido antes de
a obra sair do papel.
Mas, em se tratando de China, é preciso levar em
consideração também a preocupação do governo em manter a situação sob controle.
Em todos os locais onde paramos fomos recebidos por pessoas sorridentes, em
trajes típicos, mostrando para os estrangeiros como a vida é linda por lá. Eu e
meus colegas tentamos entrevistar algumas dessas pessoas. Primeiro, tínhamos
que ser muito rápidos, havia sempre alguém da organização pressionando para que
voltássemos ao “esquema” da excursão. Segundo, muitas dessas pessoas cantando e
dançando não eram moradores locais, devem ter sido contratados para o evento. Os moradores locais, quando falavam, era como se
tivessem tido uma uma aula, com discurso na ponta da língua.
Como jornalista, mais uma experiência da vida nesse país.
Como turista, uma experiência que não quero repetir. E sigo sem ver pandas.
Para quem quiser ler um pouco mais sobre o assunto (em
inglês) http://factsanddetails.com/china.php?itemid=1020&catid=10&subcatid=65
E mais essa, da BBC: http://news.bbc.co.uk/1/hi/world/asia-pacific/7449814.stm
- escola destruída em Sichuan
- ao fundo, novas construções
- estrutura para segurar escombros
- mais escombros
- lembranças do terremoto
- destruição em Sichuan













